Você foi sensata!

Sensatez, segundo o Aurélio, é a qualidade de quem é sensato. Sinônimo de juízo, circunspecção e prudência.

Porém, esta não é uma história sobre sensatez.

Cíntia conheceu Henrique. Conversaram, riram, deu match. Se beijaram no primeiro dia. Cíntia foi embora, Henrique continuou se comunicando. Coraçãozinho pra lá, saudade do seu sotaque pra cá, lembrei de você ouvindo essa música, dentre outras obviedades das quais quase todos seres humanos com alguns hormônios a mais nas ideias, vez ou outra, se submetem. Depois de meses de tracinhos azuis devidamente respondidos nos bate papos virtuais Henrique só se esqueceu de contar um detalhe aparentemente irrelevante sobre sua vida: ele tinha uma companheira. Companheira, no caso, no sentido popular-romântico da palavra, significa: namorada, esposa, mulher, aquela com quem ele fez um acordo de relacionamento monogâmico.

Cíntia descobriu, ficou triste, foi ao inferno pela primeira vez, pensou em nunca mais ver Henrique. Mas viu, não resistiu, se beijaram de novo, depois se beijaram outra vez e de novo. Cíntia se apaixonou, perdeu o juízo e qualquer discernimento sobre certo e errado. Cíntia se declarou, a moça da outra ponta do triângulo descobriu. Deu ruim. A moça quis saber a verdade, Henrique mentiu. Henrique pediu pra Cíntia mentir também. Cíntia foi ao inferno pela segunda vez. Cíntia sumiu e foi ter com seus demônios tentando não interferir nos demônios de ninguém. Embora uma parte sua considerasse injusta essa imersão infernal solitária, preferiu (por sensatez?) imergir sozinha.

Até aí nada de muito incomum. Acontece nas melhores e piores famílias desde que o patriarcado e a monogamia são o patriarcado e a monogamia.  Seria só mais uma história pra se chorar no buteco com as amigas, não fosse pela reprodução às avessas desse causo. Às avessas porque ao invés dos filhos reproduzindo as histórias dos pais, nesse caso, são os pais reproduzindo os filhos. Ou melhor, o pai reproduzindo a filha. Ou a filha reproduzindo a história do pai de maneira retroativa, em outro tempo-espaço. Mas aí é pirar demais na reflexão freudiana-quântica. Retomando: o pai de Cíntia tem uma companheira que não é a sua mãe. Embora a modelagem seja mais moderna que o habitual ainda assim formam um casal monogâmico. O pai de Cíntia conheceu outra mulher e achou que a melhor solução seria contar meias verdades pra ela, omitir, assim, discretamente, alimentando a boa e velha esquiva nossa de cada dia,  que ele fazia parte de um relacionamento afetivo “sério” como se diz no facebook. E foi justamente o facebook a ferramenta crucial que tornou esse fechamento possível. A via crucis clichê se manifestou mais uma vez: a namorada entrou em contato com a companheira e jogou toda a real. Deu ruim. De novo. Muito ruim.

Deu tão ruim que o pai de Cíntia, angustiado, quis desabafar com ela. O pai estava muito magoado com a ex-nova namorada, decidido a conversar pessoalmente com ela e fazer aquele gaslightingzinho maroto, aquela transferência de responsabilidade maneira, na intenção de que ela percebesse todo mal que causou à sua companheira. Ela-causou-o-mal. Que fique registrado.

Cintia aproveitou a deixa e partiu pra um argumento meio apelativo e rasteiro, mas que nesse caso caiu como uma luva de silicone reutilizada: lembrou-o que ele é pai de três filhas, todas potenciais vítimas de canalhices como a sua. Pra ser mais ilustrativa contou rapidamente de Henrique, sem citar nomes, mas pecou quando expôs sua passividade, sua imersão solitária no inferno. Pecou porque foi aplaudida por seu pai. Você foi sensata, ele disse. Pecou porque percebeu que essa era a atitude que seu pai esperava que sua namorada tivesse: o silêncio. Aquele silêncio que diz baixinho no ouvido: aceita, homem é assim mesmo!

Por um átimo de segundo Cíntia se sentiu orgulhosa por ter conseguido aquilo que toda menina insegura espera: a aceitação de seu pai (Freud, seu danado). Porém, por todos os átimos de todos os segundos depois sua adolescente interna quis chutar tudo e dizer foda-se pra sensatez. Foda-se pro silêncio. Foda-se pro você tem que dar conta disso sozinha. Foda-se pra o que ele vai pensar. Foda-se pra quem mente e tenta dividir a conta no final. Foda-se para a reprodução desses padrões.

A mulher, nem passiva, nem agressiva, apenas reflexiva, conclui que com ou sem sensatez a única certeza é que vai dar ruim. Alguém vai se foder estrambolicamente ao tropeçar nos fios soltos das meias verdades e omissões. A mulher, então, retoma seu argumento meio rasteiro, porém, nesse caso, necessário e pensa que todos os pais, sobretudo de filhas, precisam urgentemente ponderar suas irresponsabilidades afetivas, afinal, o ciclo da reprodução dos padrões não perdoa ninguém.

Freud, de novo, explica.

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