Entre buscas e lutas: o Santo Graal que vale a pena ser encontrado.

Texto originalmente publicado aqui: http://www.fervoproducoes.com.br/o-verdadeiro-santo-graal/

Escrever sobre mulheres, sobretudo no mês que se celebra o marco da nossa luta pela liberdade, é sempre um desafio. Seja pelo risco de ser repetitiva, seja pela necessidade de se policiar excessivamente para não incorrer em terminologias e regras generalistas.

Acontece que, conversando com uma amiga sobre isso esses dias nos pegamos totalmente reféns de padrões que, aparentemente já haviam sido superados. Ou seja, o risco de ser repetitiva deve ser encarado para todo o sempre, enquanto houver alguma mulher aprisionada a algum “tem que” ou a algum impedimento comportamental apenas por ser mulher.

Fico pensando: se eu que passo o dia vasculhando textos feministas, me considero num nível intermediário (se houvesse essa divisão de níveis nesse assunto) nos estudos de gênero, participo de rodas, encontros, fóruns, etc, ainda assim tenho cá meus paradigmazinhos para ressignificar cotidianamente, imagina quem não teve ainda o privilégio de ser picado pela mosca lilás da libertação e vaga pelo mundo com um enorme saco nas costas, cheio de condicionamentos perversos e padronizados.

Portanto, o que quer que se diga sobre o assunto hoje e qualquer outro dia ainda será pouco. E aqui quero chamar atenção para uma coisa fundamental: ouvir mulheres! Reparem que eu disse ouvir e não dar voz. Voz a gente já tem, os outros é que precisam abrir mão do pedestal do privilégio, sentar e ouvir. Acima de tudo, nós mulheres precisamos nos ouvir, nos ler e compartilhar nossas próprias palavras que decodificam o lugar pelo qual vemos o mundo.

Além de lermos umas as outras através das palavras escritas é imprescindível lermos umas as outras através da alma e da acolhida da essência e da vulnerabilidade que cada uma trás para os encontros. E é justamente a necessidade de nos encontrarmos que quero reforçar agora.

Quando falo sobre encontro me refiro a rodas de conversa, debates, círculos de cultura, vivência, enfim, uma infinidade de possibilidades de estarmos presentes uma na frente da outra, externando nossas experiências e acolhendo as experiências das outras. No campo político já vemos esses encontros com algum sucesso, não ainda com o tamanho que queremos, precisamos e merecemos, mas é inegável que avançamos em termos de representatividade em partidos políticos, sindicatos, instituições e afins. Ainda assim o congresso permanece com menos 10% de mulheres e seguimos na árdua luta para equiparar essa porcentagem. Elegemos uma mulher para a presidência, o que foi um marco, mas ainda temos que cotidianamente nos defender através da imagem dela, de xingamentos misóginos que direta ou indiretamente associa os tempos de crise político-econômica ao fato dela ser mulher. Embora toda essa luta seja intensa e urgente, não é exatamente sobre ela que quero falar.

Quero ressaltar a importância do afeto, ou a necessidade de olharmos pra dentro e percebermos o quanto nos distanciamos dele no meio de toda essa luta pela sobrevivência. Acredito que precisamos falar sobre relacionamentos e como nossa maneira de nos relacionar foi atropelada pela necessidade de estar inteira e respirando após um cotidiano maçante para provar nossas competências profissionais, depois de perder a voz de tanto gritar pra conseguir ser ouvida, depois de explicar repetidas vezes porque o assédio agride tanto. Enfim, estamos tão devastadoramente atoladas na lama da batalha da legitimidade que mal temos tempo pra sentar e falar sobre nossas falências afetivas.

Tive a oportunidade de participar de algumas vivências com mulheres durante a expedição pernambucana do projeto “Plantando Liberdade”, que tem o objetivo de ornamentar gaiolas reutilizadas, dando a elas um sentido novo, ressignificando um objeto de dor e prisão em um de beleza e liberdade, sendo a gaiola uma metáfora para nossas próprias prisões. Fui em grupos de mulheres já estabelecidos em três localidades distintas: na periferia do Recife, em um centro de formação do MTST em Caruaru e com formadoras do sertão do Pajeú em Afogados da Ingazeira. O que mais me chamou a atenção nesses grupos foi, a princípio, o fato deles existirem. A gente até já se acostumou com eles, mas olhando assim de pertinho, pensando bem, não é sensacional que eles existam? Não é maravilhoso que mulheres se juntem uma ou duas vezes por semana pra fazerem alguma atividade coletiva ou simplesmente para se ouvirem? Durante essas vivências ouvi várias histórias sobre relacionamento e aprendi muito com todas elas. Em alguns momentos choramos juntas e era clara a ideia de que a dor de uma era a dor de todas. Outra evidência dessas experiências foi a confirmação personificada daquilo que a gente sempre soube: mulheres unidas amedrontam o status quo. Em uma das atividades um grupo de homens ficou rodeando a casa onde o encontro acontecia, fazia barulho, agitava as crianças, dentre outros subterfúgios para voltarem a ser o personagem para o qual a sociedade os acostumou: o centro das atenções femininas.

Uma pesquisa feita pelo Geena Davis Institute on Gender in Media, a Organização das Nações Unidas (ONU) Mulheres e a Fundação Rockefeller em 2014, mostra como a construção de personagens cinematográficos está na maioria absoluta das vezes ao redor do enredo masculino. Apenas 30% dos personagens femininos têm fala, e quando acontecem são raras as cenas em que duas mulheres estejam juntas falando sobre si mesmas, revelando suas próprias angústias ou aspirações, sem que isso diga respeito a homens.  Ou seja, toda nossa formação familiar, social e cultural, nos desencoraja a nos expressar, sobretudo com outras mulheres. O patriarcado sempre soube o grande risco que correria se nós nos percebêssemos como aliadas e por isso foi sempre eficiente em nos difamar umas as outras e incentivar que nos tornássemos rivais, invertendo o significado do Santo Graal, atribuindo a ele, agora, a necessidade de encontrarmos um homem para legitimar nossa existência, sendo que, para isso, precisaríamos considerar a outra uma ameaça a nossa conquista do cálice as avessas.

Por sorte, luta e merecimento descobrimos a palavra sororidade que, mesmo que os corretores ortográficos do patriarcado não a reconheçam, ela existe e ganha cada dia mais força. Ganha força nos encontros urbanos e no sertão, na América Latina e na África, ou em qualquer outro lugar do mundo onde uma mulher olhe para a outra, veja a exuberância da sua existência, o poder de perceber, respeitar e pertencer a si mesma e pensar: sim, eu também posso!

Eis o verdadeiro Santo Graal a ser encontrado: nós mesmas.

Mulheres, encontremo-nos!

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