Estrangeira Gozadora

Texto originalmente publicado no: https://meialuainteira.wordpress.com/2015/08/21/estrangeira-gozadora/

Já tentou se definir em uma palavra? Não que isso seja necessário, mas não deixa de ser um exercício interessante. Acredito que podemos mudar nossa palavra definidora ao longo do tempo, porém, até então, analisando minha jornada até aqui, penso que minha adjetivação mais adequada é: estrangeira!

Essa definição, no meu caso, vai além de um suposto despatriamento geográfico, trata-se da graça que vejo em ser estrangeira nas diversas tribos pelas quais eu circulo. Faço da polivalência uma oportunidade para evidenciar minhas diversas personagens em grupos distintos. Explico: entre os amigos espiritualizados eu sou aquela que fala de política, entre os politizados sou a menina estranha que fala gratidão e não come animais, entre os militantes extra- revolucionários sou aquela que faz graça, dança, canta e sapateia na expectativa de aliviar o peso da realidade bruta do sistema capitalista opressor. Para alguns amigos eu deveria cortar o cabelo, me fixar em um emprego que me remunere bem, casar e ter um CEP pra chamar de meu. Para outros, colocar dreads e pegar estrada com uma mochila nas costas é tudo o que falta pra eu ser feliz. E ainda tem os que acham que minha onda é mesmo a sala de aula, física ou virtual. E eu concordo, de alguma maneira, com todos eles.

O ápice da minha estrangeirice foi minha estranheza ao voltar a viver em Belo Horizonte, minha terra natal, depois de alguns anos morando em São Paulo e foi acentuada após minha experiência pernambucana. A estranheza, na verdade, era por não ser estranha, por não ter uma desconexão com a maioria. Era tudo como todo mundo: o sotaque, as referências, o gosto por queijo canastra, tudo!

Percebi que não sirvo para endossar maiorias, talvez tenha levado muito a sério a frase de Mark Twain: “Toda vez que você se encontrar do lado da maioria, é hora de parar e refletir”.  Isso serve para avaliarmos se nossa individualidade está sendo oprimida pelo “efeito manada”, afinal, por que vivemos como vivemos? Quanto de consciência há por trás de nossas escolhas? Percebi também que pertenço, na verdade, ao clube dos despertencidos e esse despertencimento inspirou muitos voos e um anseio latente por liberdade. Ou será que foi o contrário? O anseio por liberdade que gerou o despertencimento?

É bem verdade que o anseio por liberdade já inspirou milhares de canções e poemas, é unânime! Quem nunca invejou um pássaro que atire a primeira pedra – não no pássaro, por favor! Mas já parou pra pensar na fragilidade de um pássaro? Principalmente se comparado à raiz de uma árvore? Pois é, há um ônus para qualquer graça, para qualquer poesia. E o ônus de um despatriado é estar quase sempre só, sem um ninho pra chamar de seu. Para Bauman, o filósofo bam bam bam do momento, a grande questão humana, o tal do segredinho da felicidade, é conseguir equilibrar liberdade e segurança que, segundo ele, são forças antagônicas. Para ser livre é preciso abrir mão da segurança e vice versa. É uma escolha, sempre difícil e um convite à esquiva, mas uma escolha.

Decidi não me esquivar e seguir minha “missão Maia”, para os quais eu sou “enlaçadora de mundos” como se precisasse conhecê-los todos, mas sem a nenhum pertencer. De alguma maneira é assim que me sinto, como uma pulverizadora de sementes que não ficou para cultiva-las, logo, não participou da colheita.

Passei muito tempo rompendo laços, ou evitando atá-los, por acreditar que isso significaria liberdade, mas foi aí que o engano se enganou. Hoje entendo melhor as palavras de Bauman e venho tentando me equilibrar nessa tábua sobre um cilindro rolador: voando e pousando, voando e pousando, voando e pousando.

Sim, há muita poesia no voo e não quero nunca deixar de plantar liberdade, mas aninhar-se também tem sua melodia, principalmente quando o inverno chega. Ainda bem que a natureza é abundante e passarinho não precisa carregar casa, quando chegar a hora não vai faltar palha pra fazer meu ninho.

Ainda desaninhada, mas isso não me impede de cantar ra ra ra ra!

Tô no pé de onde der ra ra ra ra!

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