Quando pétalas brotam dos pés

Há anos eu ouço: você deveria criar um blog. Há anos concordo com essa ideia, mas me esquivava da ação por diversos motivos.

O principal deles era a dificuldade de formatar minhas ideias em torno de um único tema, ou diminuir consideravelmente as variáveis possíveis de assuntos que circundam minha mente acelerada.

O segundo desafio era o desconforto com a exposição. Sair por aí exibindo traços do meu existencialismo dramático poderia soar um tanto ridículo. Sempre gostei de escrever e sempre tive ojeriza dos meus escritos depois de passado o tempo de maturação. Na adolescência eu rasgava as páginas dos diários quando os relia. As críticas implacáveis iam do “como eu pude pensar isso?”, ou “sério que eu dava importância pra essas bobagens?”, até o “o que? Eu escrevi agente junto? Que burra, da zero pra ela!“. Nesse sentido, transformar palavras em nuvens, possivelmente, eternas, era um tanto aterrorizante.

O terceiro nó era o layout. Tem um papel guardado no meu armário, assinado pelo reitor da UEMG, que afirma que sou bacharela (sim, com flexão de gênero) em Desenho industrial com habilitação em Programação Visual, mais conhecido como Design Gráfico, nos tempos atuais. Acontece que, de designer gráfico mesmo só tenho o diploma e alguns poucos trabalhos realizados em uma categoria intermediária entre o amadorismo e o semiprofissional. Pelo menos é como minha mente crítica classifica meus rabiscos quando os compara com profissionais de verdade. Por isso não conseguia imaginar a possibilidade de criar um blog sem layout algum, afinal, o que eu fiz naquela universidade durante cinco anos? Mas também tinha tremiliques com a ideia de criar qualquer coisa e essa qualquer coisa ficar por aí disponível pra essa implacável banca chamada mundo. Tínhamos um impasse aparentemente besta, mas um impasse!

Depois de dedicar vinte e sete anos em ser especialista em alguma coisa, a construir uma terra firme para assentar os pés, passei a me dedicar a dar reviravoltas na minha vida. Mudei de estado, depois me mudei de novo, trabalhei em vários lugares, com diversas coisas diferentes, provei pitadas de arte, violão, fotografia, canto, dança, capoeira, produção, astrologia, tarô e doses cavalares de feminismo, militância, viagens, etc. Enfim, descobri que pra mim a tal da terra a vista ainda está um pouco longe dos meus olhos. Precisei me acostumar a ver graça na versatilidade e vi! Depois entrei pra fase seguinte: aquela que a gente tenta juntar todos esses ingredientes e formar uma coisa só com um nome e definição, aquela vontadezinha de escolher uma palavra pra definir o que você faz, ou o que se é. Design, definitivamente, não me representava. Até que ouvi de outro designer-artista-polivalente essa soma do nome+ista e bingo, tínhamos uma definição: sou manuista.

Sinto orgulho da quantidade de coisas que posso fazer, mas daí voltamos pro início: qual o foco? Falar sobre o que? Qual a relevância?

Até que veio a luz: que se dane o foco, que se dane a relevância!

Depois de anos falando sobre liberdade e parindo asas que teimavam em não nascer, resolvi enfrentar esses desafios do ego e botar a cara no sol. Trata-se da minha primavera pessoal, aquela que me liberta da minha própria tirania.

Na semana que sonhei que pétalas de margaridas brotavam nas unhas do meus pés percebi que precisava conduzir essa primavera para o lugar certo: aqui mesmo!

Superados os dois primeiros desafios, fui enfrentar o terceiro. Enquanto fazia o banner pro layout me lembrei da minha primeira plataforma de expressão pública. Lembrei da minha satisfação em fazer deseinhos e, principalmente, em escrever frases de efeito pra sala toda ler, sentir e refletir.  Um dia a professora de literatura se impactou com uma das frases e demandou uma redação sobre o tema pra turma inteira. A maioria me odiou por isso. Porém, tenho certeza que o ódio temporário não foi maior que o aprendizado conquistado ao refletir sobre uma ideia e juntar algumas letrinhas a partir delas. As vezes penso que é pra isso que a gente serve, pra se esbarrar, pra fazer sentindo um para o outro, pra aprender com as experiências alheias.

Se etimologicamente a palavra texto vem de tecer, acredito que quando a gente se encontra através das ideias somos capazes de tecer o grande tecido da existência, aquele que evidencia nossa humanidade e nos torna todos um.

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