Você foi sensata!

Sensatez, segundo o Aurélio, é a qualidade de quem é sensato. Sinônimo de juízo, circunspecção e prudência.

Porém, esta não é uma história sobre sensatez.

Cíntia conheceu Henrique. Conversaram, riram, deu match. Se beijaram no primeiro dia. Cíntia foi embora, Henrique continuou se comunicando. Coraçãozinho pra lá, saudade do seu sotaque pra cá, lembrei de você ouvindo essa música, dentre outras obviedades das quais quase todos seres humanos com alguns hormônios a mais nas ideias, vez ou outra, se submetem. Depois de meses de tracinhos azuis devidamente respondidos nos bate papos virtuais Henrique só se esqueceu de contar um detalhe aparentemente irrelevante sobre sua vida: ele tinha uma companheira. Companheira, no caso, no sentido popular-romântico da palavra, significa: namorada, esposa, mulher, aquela com quem ele fez um acordo de relacionamento monogâmico.

Cíntia descobriu, ficou triste, foi ao inferno pela primeira vez, pensou em nunca mais ver Henrique. Mas viu, não resistiu, se beijaram de novo, depois se beijaram outra vez e de novo. Cíntia se apaixonou, perdeu o juízo e qualquer discernimento sobre certo e errado. Cíntia se declarou, a moça da outra ponta do triângulo descobriu. Deu ruim. A moça quis saber a verdade, Henrique mentiu. Henrique pediu pra Cíntia mentir também. Cíntia foi ao inferno pela segunda vez. Cíntia sumiu e foi ter com seus demônios tentando não interferir nos demônios de ninguém. Embora uma parte sua considerasse injusta essa imersão infernal solitária, preferiu (por sensatez?) imergir sozinha.

Até aí nada de muito incomum. Acontece nas melhores e piores famílias desde que o patriarcado e a monogamia são o patriarcado e a monogamia.  Seria só mais uma história pra se chorar no buteco com as amigas, não fosse pela reprodução às avessas desse causo. Às avessas porque ao invés dos filhos reproduzindo as histórias dos pais, nesse caso, são os pais reproduzindo os filhos. Ou melhor, o pai reproduzindo a filha. Ou a filha reproduzindo a história do pai de maneira retroativa, em outro tempo-espaço. Mas aí é pirar demais na reflexão freudiana-quântica. Retomando: o pai de Cíntia tem uma companheira que não é a sua mãe. Embora a modelagem seja mais moderna que o habitual ainda assim formam um casal monogâmico. O pai de Cíntia conheceu outra mulher e achou que a melhor solução seria contar meias verdades pra ela, omitir, assim, discretamente, alimentando a boa e velha esquiva nossa de cada dia,  que ele fazia parte de um relacionamento afetivo “sério” como se diz no facebook. E foi justamente o facebook a ferramenta crucial que tornou esse fechamento possível. A via crucis clichê se manifestou mais uma vez: a namorada entrou em contato com a companheira e jogou toda a real. Deu ruim. De novo. Muito ruim.

Deu tão ruim que o pai de Cíntia, angustiado, quis desabafar com ela. O pai estava muito magoado com a ex-nova namorada, decidido a conversar pessoalmente com ela e fazer aquele gaslightingzinho maroto, aquela transferência de responsabilidade maneira, na intenção de que ela percebesse todo mal que causou à sua companheira. Ela-causou-o-mal. Que fique registrado.

Cintia aproveitou a deixa e partiu pra um argumento meio apelativo e rasteiro, mas que nesse caso caiu como uma luva de silicone reutilizada: lembrou-o que ele é pai de três filhas, todas potenciais vítimas de canalhices como a sua. Pra ser mais ilustrativa contou rapidamente de Henrique, sem citar nomes, mas pecou quando expôs sua passividade, sua imersão solitária no inferno. Pecou porque foi aplaudida por seu pai. Você foi sensata, ele disse. Pecou porque percebeu que essa era a atitude que seu pai esperava que sua namorada tivesse: o silêncio. Aquele silêncio que diz baixinho no ouvido: aceita, homem é assim mesmo!

Por um átimo de segundo Cíntia se sentiu orgulhosa por ter conseguido aquilo que toda menina insegura espera: a aceitação de seu pai (Freud, seu danado). Porém, por todos os átimos de todos os segundos depois sua adolescente interna quis chutar tudo e dizer foda-se pra sensatez. Foda-se pro silêncio. Foda-se pro você tem que dar conta disso sozinha. Foda-se pra o que ele vai pensar. Foda-se pra quem mente e tenta dividir a conta no final. Foda-se para a reprodução desses padrões.

A mulher, nem passiva, nem agressiva, apenas reflexiva, conclui que com ou sem sensatez a única certeza é que vai dar ruim. Alguém vai se foder estrambolicamente ao tropeçar nos fios soltos das meias verdades e omissões. A mulher, então, retoma seu argumento meio rasteiro, porém, nesse caso, necessário e pensa que todos os pais, sobretudo de filhas, precisam urgentemente ponderar suas irresponsabilidades afetivas, afinal, o ciclo da reprodução dos padrões não perdoa ninguém.

Freud, de novo, explica.

Quadrilha do século XXI

Elisa namorava Miguel que era crush de Juliana que era crush de Otávio que era crush de Cristina que era crush de Raul que provavelmente era crush de alguém, menos de Cristina.

Elisa tinha planos ambiciosos que não incluíam Miguel, mas só Miguel, acomodado, não percebia. Juliana aguardava ansiosa pelo dia que Elisa tomaria a decisão que mudaria a vida dos três. Juliana inspirava, Otávio escrevia e Cristina suspirava, mas quanto mais Cristina avançava, mais Otávio retrocedia. Raul foi internado em uma clínica de recuperação para stalkers virtuais.

Entre buscas e lutas: o Santo Graal que vale a pena ser encontrado.

Texto originalmente publicado aqui: http://www.fervoproducoes.com.br/o-verdadeiro-santo-graal/

Escrever sobre mulheres, sobretudo no mês que se celebra o marco da nossa luta pela liberdade, é sempre um desafio. Seja pelo risco de ser repetitiva, seja pela necessidade de se policiar excessivamente para não incorrer em terminologias e regras generalistas.

Acontece que, conversando com uma amiga sobre isso esses dias nos pegamos totalmente reféns de padrões que, aparentemente já haviam sido superados. Ou seja, o risco de ser repetitiva deve ser encarado para todo o sempre, enquanto houver alguma mulher aprisionada a algum “tem que” ou a algum impedimento comportamental apenas por ser mulher.

Fico pensando: se eu que passo o dia vasculhando textos feministas, me considero num nível intermediário (se houvesse essa divisão de níveis nesse assunto) nos estudos de gênero, participo de rodas, encontros, fóruns, etc, ainda assim tenho cá meus paradigmazinhos para ressignificar cotidianamente, imagina quem não teve ainda o privilégio de ser picado pela mosca lilás da libertação e vaga pelo mundo com um enorme saco nas costas, cheio de condicionamentos perversos e padronizados.

Portanto, o que quer que se diga sobre o assunto hoje e qualquer outro dia ainda será pouco. E aqui quero chamar atenção para uma coisa fundamental: ouvir mulheres! Reparem que eu disse ouvir e não dar voz. Voz a gente já tem, os outros é que precisam abrir mão do pedestal do privilégio, sentar e ouvir. Acima de tudo, nós mulheres precisamos nos ouvir, nos ler e compartilhar nossas próprias palavras que decodificam o lugar pelo qual vemos o mundo.

Além de lermos umas as outras através das palavras escritas é imprescindível lermos umas as outras através da alma e da acolhida da essência e da vulnerabilidade que cada uma trás para os encontros. E é justamente a necessidade de nos encontrarmos que quero reforçar agora.

Quando falo sobre encontro me refiro a rodas de conversa, debates, círculos de cultura, vivência, enfim, uma infinidade de possibilidades de estarmos presentes uma na frente da outra, externando nossas experiências e acolhendo as experiências das outras. No campo político já vemos esses encontros com algum sucesso, não ainda com o tamanho que queremos, precisamos e merecemos, mas é inegável que avançamos em termos de representatividade em partidos políticos, sindicatos, instituições e afins. Ainda assim o congresso permanece com menos 10% de mulheres e seguimos na árdua luta para equiparar essa porcentagem. Elegemos uma mulher para a presidência, o que foi um marco, mas ainda temos que cotidianamente nos defender através da imagem dela, de xingamentos misóginos que direta ou indiretamente associa os tempos de crise político-econômica ao fato dela ser mulher. Embora toda essa luta seja intensa e urgente, não é exatamente sobre ela que quero falar.

Quero ressaltar a importância do afeto, ou a necessidade de olharmos pra dentro e percebermos o quanto nos distanciamos dele no meio de toda essa luta pela sobrevivência. Acredito que precisamos falar sobre relacionamentos e como nossa maneira de nos relacionar foi atropelada pela necessidade de estar inteira e respirando após um cotidiano maçante para provar nossas competências profissionais, depois de perder a voz de tanto gritar pra conseguir ser ouvida, depois de explicar repetidas vezes porque o assédio agride tanto. Enfim, estamos tão devastadoramente atoladas na lama da batalha da legitimidade que mal temos tempo pra sentar e falar sobre nossas falências afetivas.

Tive a oportunidade de participar de algumas vivências com mulheres durante a expedição pernambucana do projeto “Plantando Liberdade”, que tem o objetivo de ornamentar gaiolas reutilizadas, dando a elas um sentido novo, ressignificando um objeto de dor e prisão em um de beleza e liberdade, sendo a gaiola uma metáfora para nossas próprias prisões. Fui em grupos de mulheres já estabelecidos em três localidades distintas: na periferia do Recife, em um centro de formação do MTST em Caruaru e com formadoras do sertão do Pajeú em Afogados da Ingazeira. O que mais me chamou a atenção nesses grupos foi, a princípio, o fato deles existirem. A gente até já se acostumou com eles, mas olhando assim de pertinho, pensando bem, não é sensacional que eles existam? Não é maravilhoso que mulheres se juntem uma ou duas vezes por semana pra fazerem alguma atividade coletiva ou simplesmente para se ouvirem? Durante essas vivências ouvi várias histórias sobre relacionamento e aprendi muito com todas elas. Em alguns momentos choramos juntas e era clara a ideia de que a dor de uma era a dor de todas. Outra evidência dessas experiências foi a confirmação personificada daquilo que a gente sempre soube: mulheres unidas amedrontam o status quo. Em uma das atividades um grupo de homens ficou rodeando a casa onde o encontro acontecia, fazia barulho, agitava as crianças, dentre outros subterfúgios para voltarem a ser o personagem para o qual a sociedade os acostumou: o centro das atenções femininas.

Uma pesquisa feita pelo Geena Davis Institute on Gender in Media, a Organização das Nações Unidas (ONU) Mulheres e a Fundação Rockefeller em 2014, mostra como a construção de personagens cinematográficos está na maioria absoluta das vezes ao redor do enredo masculino. Apenas 30% dos personagens femininos têm fala, e quando acontecem são raras as cenas em que duas mulheres estejam juntas falando sobre si mesmas, revelando suas próprias angústias ou aspirações, sem que isso diga respeito a homens.  Ou seja, toda nossa formação familiar, social e cultural, nos desencoraja a nos expressar, sobretudo com outras mulheres. O patriarcado sempre soube o grande risco que correria se nós nos percebêssemos como aliadas e por isso foi sempre eficiente em nos difamar umas as outras e incentivar que nos tornássemos rivais, invertendo o significado do Santo Graal, atribuindo a ele, agora, a necessidade de encontrarmos um homem para legitimar nossa existência, sendo que, para isso, precisaríamos considerar a outra uma ameaça a nossa conquista do cálice as avessas.

Por sorte, luta e merecimento descobrimos a palavra sororidade que, mesmo que os corretores ortográficos do patriarcado não a reconheçam, ela existe e ganha cada dia mais força. Ganha força nos encontros urbanos e no sertão, na América Latina e na África, ou em qualquer outro lugar do mundo onde uma mulher olhe para a outra, veja a exuberância da sua existência, o poder de perceber, respeitar e pertencer a si mesma e pensar: sim, eu também posso!

Eis o verdadeiro Santo Graal a ser encontrado: nós mesmas.

Mulheres, encontremo-nos!

Estrangeira Gozadora

Texto originalmente publicado no: https://meialuainteira.wordpress.com/2015/08/21/estrangeira-gozadora/

Já tentou se definir em uma palavra? Não que isso seja necessário, mas não deixa de ser um exercício interessante. Acredito que podemos mudar nossa palavra definidora ao longo do tempo, porém, até então, analisando minha jornada até aqui, penso que minha adjetivação mais adequada é: estrangeira!

Essa definição, no meu caso, vai além de um suposto despatriamento geográfico, trata-se da graça que vejo em ser estrangeira nas diversas tribos pelas quais eu circulo. Faço da polivalência uma oportunidade para evidenciar minhas diversas personagens em grupos distintos. Explico: entre os amigos espiritualizados eu sou aquela que fala de política, entre os politizados sou a menina estranha que fala gratidão e não come animais, entre os militantes extra- revolucionários sou aquela que faz graça, dança, canta e sapateia na expectativa de aliviar o peso da realidade bruta do sistema capitalista opressor. Para alguns amigos eu deveria cortar o cabelo, me fixar em um emprego que me remunere bem, casar e ter um CEP pra chamar de meu. Para outros, colocar dreads e pegar estrada com uma mochila nas costas é tudo o que falta pra eu ser feliz. E ainda tem os que acham que minha onda é mesmo a sala de aula, física ou virtual. E eu concordo, de alguma maneira, com todos eles.

O ápice da minha estrangeirice foi minha estranheza ao voltar a viver em Belo Horizonte, minha terra natal, depois de alguns anos morando em São Paulo e foi acentuada após minha experiência pernambucana. A estranheza, na verdade, era por não ser estranha, por não ter uma desconexão com a maioria. Era tudo como todo mundo: o sotaque, as referências, o gosto por queijo canastra, tudo!

Percebi que não sirvo para endossar maiorias, talvez tenha levado muito a sério a frase de Mark Twain: “Toda vez que você se encontrar do lado da maioria, é hora de parar e refletir”.  Isso serve para avaliarmos se nossa individualidade está sendo oprimida pelo “efeito manada”, afinal, por que vivemos como vivemos? Quanto de consciência há por trás de nossas escolhas? Percebi também que pertenço, na verdade, ao clube dos despertencidos e esse despertencimento inspirou muitos voos e um anseio latente por liberdade. Ou será que foi o contrário? O anseio por liberdade que gerou o despertencimento?

É bem verdade que o anseio por liberdade já inspirou milhares de canções e poemas, é unânime! Quem nunca invejou um pássaro que atire a primeira pedra – não no pássaro, por favor! Mas já parou pra pensar na fragilidade de um pássaro? Principalmente se comparado à raiz de uma árvore? Pois é, há um ônus para qualquer graça, para qualquer poesia. E o ônus de um despatriado é estar quase sempre só, sem um ninho pra chamar de seu. Para Bauman, o filósofo bam bam bam do momento, a grande questão humana, o tal do segredinho da felicidade, é conseguir equilibrar liberdade e segurança que, segundo ele, são forças antagônicas. Para ser livre é preciso abrir mão da segurança e vice versa. É uma escolha, sempre difícil e um convite à esquiva, mas uma escolha.

Decidi não me esquivar e seguir minha “missão Maia”, para os quais eu sou “enlaçadora de mundos” como se precisasse conhecê-los todos, mas sem a nenhum pertencer. De alguma maneira é assim que me sinto, como uma pulverizadora de sementes que não ficou para cultiva-las, logo, não participou da colheita.

Passei muito tempo rompendo laços, ou evitando atá-los, por acreditar que isso significaria liberdade, mas foi aí que o engano se enganou. Hoje entendo melhor as palavras de Bauman e venho tentando me equilibrar nessa tábua sobre um cilindro rolador: voando e pousando, voando e pousando, voando e pousando.

Sim, há muita poesia no voo e não quero nunca deixar de plantar liberdade, mas aninhar-se também tem sua melodia, principalmente quando o inverno chega. Ainda bem que a natureza é abundante e passarinho não precisa carregar casa, quando chegar a hora não vai faltar palha pra fazer meu ninho.

Ainda desaninhada, mas isso não me impede de cantar ra ra ra ra!

Tô no pé de onde der ra ra ra ra!

CONTOS DE LIBERDADE – O VOO DA MINEIRA DE CORAÇÃO PERNAMBUCANO!

Texto originalmente publicado no: http://portalfloresnoar.com/floresnoar/contos-de-liberdade-o-voo-da-mineira-de-coracao-pernambucano/

Há mais de um ano encasquei com a ideia de fazer uma espécie de mochilão por Pernambuco. A primeira motivação era a quantidade enorme de ídolos meus nascidos naquela terra. Ficava encafifada: como um estado relativamente pequeno, quase uma tripinha horizontal no mapa do Brasil, pode produzir tantas pessoas geniais? Pensando mais um pouco percebi que todos esses ídolos eram homens, daí nasceu outra pergunta: um lugar que foi berço de tantos homens geniais certamente há mulheres tão incríveis quanto, mas onde elas estão? E aí nasceu a maior de todas as motivações: conhecer histórias de mulheres que resistiram e ainda resistem bravamente ao patriarcado, lançando-se ao mundo, rompendo as barreiras da opressão.

Paralelo a isso também me encantava com a diversidade sem igual da cultura popular pernambucana e o modo como ela resiste às investidas das ‘mudernages’ que existem sim, claro, mas não apagam do imaginário coletivo a presença concreta e subjetiva da tradição popular. Do litoral, berço do frevo, ao sertão berço do xaxado e do baião há muitas maneiras distintas de se movimentar o corpo e contar as histórias daquele povo, sempre com muitas cores e com ritmo latente.

De toda essa variedade uma palpitava mais o meu coração: o baião! Tinha um desejo profundo de conhecer o Sertão, em especial a terra do Rei Luiz Gonzaga. Queria respirar aquele ar que deixava tanta saudade em quem de lá era obrigado a sair. Queria entender a fonte de tanta poesia e de tamanho encantamento pela vida. Eu vivia em São Paulo quando despertei a esse desejo e um paradoxo não saía da minha cabeça: a cidade considerada locomotiva do país, cosmopolita, onde de tudo e de todos se encontra, as vezes parecia um emaranhado de despropósitos vazios, desencontros e um fluxo intenso de uma busca frustrada por um sentido que a maioria nem sabe qual é. O que resultava num número imenso de pessoas que não queriam estar ali, mas que acreditavam que deveriam estar em função da abundância de recursos. Do outro lado, aquele pedaço do mapa que por tantos anos fora esquecido pela maioria por ser sinônimo de escassez, parecia brilhar como sinônimo de abundância do que realmente importa na vida: o pertencimento!

Meu desejo foi realizado com sucesso! Ao contrário do que nossa formação imperialista nos ensinou a entender como prosperidade e bem viver, o sertão me mostrou que eu não sabia de nada. Há menos subterfúgios para anestesiar a consciência e desfocar a essência. Isso, é claro, como disse uma grande mulher do Pajeú: aliando os saberes tradicionais às tecnologias, sem sebastianismos radicais. E isso eles fazem melhor do que ninguém. Conheci infinitas poetisas do cotidiano que lutam para não deixar a vida matar a vida. Minha grande surpresa foi perceber que essa fonte estava muito mais no céu do que na terra, ao olhar para cima vi um azul como nunca havia visto, capaz de irradiar e revelar a alma e ficar registrado eternamente na memória. Através daquele azul concretizei subjetivamente outro objetivo: plantei liberdade e voei!

Como não só de Sertão (como se fosse pouco) vive Pernambuco, aquilo que me admirava à distância pela diversidade da cultura popular e pela produção incalculável de pessoas geniais só aumentou meu apreço. Apaixonei-me pelo Recife Antigo e foi só a primeira das paixões. Na primeira semana a frase que não saía da minha boca era: eu poderia morar aqui! Referindo-me a um bar na Praça do Arsenal, ou ao Paço do Frevo, ou ao Cais do Sertão. Até uma caixa de correio e um poste de iluminação me despertavam encantamento.

E por falar em encantamento, o que dizer das palavras? A cidade berço de Paulo Freire, onde ele desenhou no chão pela primeira vez algumas palavras à sombra de uma mangueira, não poderia decepcionar nos nomes escolhidos para definir coisas e lugares. Como não se apaixonar por Apipucos, Capibaribe, Beberibe, Imbiribeira? E mais: rua das Ninfas, do Sol, da Boa Hora e da Aurora? Não é de se espantar que isso também vire poesia e música na voz do meu querido e inspirador Alceu Valença.

E ainda teve cortejos de maracatus, a noite dos tambores silenciosos foi uma das coisas mais lindas que já vi na vida. Teve o frevo (e como teve frevo). Teve a Zona da Mata onde passei dias incríveis imersa entre mamulengos, cavalo marinho, além de caboclos e caboclas de lança. Teve Agreste, muito rápido, mas o suficiente para me deparar, no Alto do Moura, com o Flamboyant vermelho mais deslumbrante que já vi na vida! E o suficiente para querer revê-lo e revivê-lo o São João.

Incontestavelmente volto infinitamente mais rica. Com uma sede profunda desse saber e com uma única certeza: voltarei!

Quando pétalas brotam dos pés

Há anos eu ouço: você deveria criar um blog. Há anos concordo com essa ideia, mas me esquivava da ação por diversos motivos.

O principal deles era a dificuldade de formatar minhas ideias em torno de um único tema, ou diminuir consideravelmente as variáveis possíveis de assuntos que circundam minha mente acelerada.

O segundo desafio era o desconforto com a exposição. Sair por aí exibindo traços do meu existencialismo dramático poderia soar um tanto ridículo. Sempre gostei de escrever e sempre tive ojeriza dos meus escritos depois de passado o tempo de maturação. Na adolescência eu rasgava as páginas dos diários quando os relia. As críticas implacáveis iam do “como eu pude pensar isso?”, ou “sério que eu dava importância pra essas bobagens?”, até o “o que? Eu escrevi agente junto? Que burra, da zero pra ela!“. Nesse sentido, transformar palavras em nuvens, possivelmente, eternas, era um tanto aterrorizante.

O terceiro nó era o layout. Tem um papel guardado no meu armário, assinado pelo reitor da UEMG, que afirma que sou bacharela (sim, com flexão de gênero) em Desenho industrial com habilitação em Programação Visual, mais conhecido como Design Gráfico, nos tempos atuais. Acontece que, de designer gráfico mesmo só tenho o diploma e alguns poucos trabalhos realizados em uma categoria intermediária entre o amadorismo e o semiprofissional. Pelo menos é como minha mente crítica classifica meus rabiscos quando os compara com profissionais de verdade. Por isso não conseguia imaginar a possibilidade de criar um blog sem layout algum, afinal, o que eu fiz naquela universidade durante cinco anos? Mas também tinha tremiliques com a ideia de criar qualquer coisa e essa qualquer coisa ficar por aí disponível pra essa implacável banca chamada mundo. Tínhamos um impasse aparentemente besta, mas um impasse!

Depois de dedicar vinte e sete anos em ser especialista em alguma coisa, a construir uma terra firme para assentar os pés, passei a me dedicar a dar reviravoltas na minha vida. Mudei de estado, depois me mudei de novo, trabalhei em vários lugares, com diversas coisas diferentes, provei pitadas de arte, violão, fotografia, canto, dança, capoeira, produção, astrologia, tarô e doses cavalares de feminismo, militância, viagens, etc. Enfim, descobri que pra mim a tal da terra a vista ainda está um pouco longe dos meus olhos. Precisei me acostumar a ver graça na versatilidade e vi! Depois entrei pra fase seguinte: aquela que a gente tenta juntar todos esses ingredientes e formar uma coisa só com um nome e definição, aquela vontadezinha de escolher uma palavra pra definir o que você faz, ou o que se é. Design, definitivamente, não me representava. Até que ouvi de outro designer-artista-polivalente essa soma do nome+ista e bingo, tínhamos uma definição: sou manuista.

Sinto orgulho da quantidade de coisas que posso fazer, mas daí voltamos pro início: qual o foco? Falar sobre o que? Qual a relevância?

Até que veio a luz: que se dane o foco, que se dane a relevância!

Depois de anos falando sobre liberdade e parindo asas que teimavam em não nascer, resolvi enfrentar esses desafios do ego e botar a cara no sol. Trata-se da minha primavera pessoal, aquela que me liberta da minha própria tirania.

Na semana que sonhei que pétalas de margaridas brotavam nas unhas do meus pés percebi que precisava conduzir essa primavera para o lugar certo: aqui mesmo!

Superados os dois primeiros desafios, fui enfrentar o terceiro. Enquanto fazia o banner pro layout me lembrei da minha primeira plataforma de expressão pública. Lembrei da minha satisfação em fazer deseinhos e, principalmente, em escrever frases de efeito pra sala toda ler, sentir e refletir.  Um dia a professora de literatura se impactou com uma das frases e demandou uma redação sobre o tema pra turma inteira. A maioria me odiou por isso. Porém, tenho certeza que o ódio temporário não foi maior que o aprendizado conquistado ao refletir sobre uma ideia e juntar algumas letrinhas a partir delas. As vezes penso que é pra isso que a gente serve, pra se esbarrar, pra fazer sentindo um para o outro, pra aprender com as experiências alheias.

Se etimologicamente a palavra texto vem de tecer, acredito que quando a gente se encontra através das ideias somos capazes de tecer o grande tecido da existência, aquele que evidencia nossa humanidade e nos torna todos um.